Como ler um boletim de sondagem SPT
Conteúdo educativo. Não substitui a ABNT NBR 6484:2020 nem a avaliação do responsável técnico.
Em poucas palavras
O boletim de sondagem SPT mostra, metro a metro, o que há no subsolo de um ponto do terreno: as camadas de solo, a profundidade da água e a resistência do solo à cravação de um amostrador. Essa resistência aparece como NSPT: o número de golpes para cravar os últimos 30 cm do amostrador em cada metro ensaiado. Para ler um boletim, confira de qual furo ele é, encontre o nível d’água, acompanhe as camadas e veja como o N muda com a profundidade e por que o furo parou.
O que é o ensaio SPT
SPT vem do inglês Standard Penetration Test, ou ensaio de penetração padrão. Em cada metro do furo, a equipe crava um amostrador no fundo com golpes de um martelo de peso e altura de queda padronizados, e conta quantos golpes foram necessários. Ao mesmo tempo, o amostrador traz uma porção do solo, que é descrita no boletim. É a investigação de subsolo mais usada no Brasil, e o método é o da ABNT NBR 6484:2020.
O boletim é o registro desse trabalho, uma folha por furo. Ele não diz qual fundação usar: é o dado de partida para quem projeta.
O boletim, item por item
Recorte 1 — cabeçalho e equipamento

- Identificação do furo e da folha. O nome do furo (aqui, SP-DEMO) e a folha (1/1). Um relatório costuma ter vários furos; o nome é o que liga o boletim à planta de locação.
- Obra, cliente, local e datas. De onde é o furo e quando foi feito. Aqui, de 01/10 a 02/10/2026.
- Coordenadas e cota do terreno. Onde o furo está e a altitude da boca do furo (aqui, 100,00 m). A cota é o que permite comparar furos de um mesmo terreno, quando a superfície não é plana.
- Equipamento. As medidas do amostrador, o peso do martelo, a altura de queda e o diâmetro do revestimento usados. Ao lado, o ensaio de avanço por circulação de água, que só é preenchido quando o furo avança com lavagem até o impenetrável (aqui, não houve).
Recorte 2 — golpes, N e curvas

- Golpes por segmento. Em cada metro, o amostrador é cravado em 3 segmentos de 15 cm, e o boletim anota os golpes e a penetração de cada um, como “9/15”: 9 golpes para 15 cm. A 9 m, o exemplo tem 9/15, 11/15 e 13/15.
- INI e NSPT. O INI soma os golpes dos 2 primeiros segmentos; o NSPT, os dos 2 últimos. A 9 m: INI = 9 + 11 = 20 e NSPT = 11 + 13 = 24. O N é o número que importa na leitura; o primeiro segmento sofre com o solo amolgado no fundo do furo.
- Estado. Um código que resume a consistência (argilas) ou a compacidade (areias), tirado do N por uma tabela da norma. O nome de cada código está na legenda, no pé da folha. O asterisco (*) quer dizer estado sugerido: o código saiu do N e do material, e o responsável técnico pode trocá-lo. No aterro (1 m), não há estado, e o boletim mostra um traço.
- Curvas de resistência. O gráfico mostra o INI (linha vermelha) e o NSPT (linha azul tracejada) ao longo da profundidade, numa escala de 0 a 50. É a forma mais rápida de ver onde o solo fica mais resistente. No exemplo, o N cresce de 5 a 36 golpes até os 11 m.
Recorte 3 — camadas, água e avanço

- Coluna de solo e base das camadas. O desenho com a hachura de cada material e, ao lado, três números por camada: a profundidade da base, a espessura (E) e a cota da base (Z). A argila siltosa, por exemplo, vai até 4,00 m, tem 2,50 m de espessura e sua base está na cota 96,00 m (100,00 − 4,00).
- Descrição tátil-visual e origem. O que a equipe viu e sentiu na amostra: o material, a cor, a textura e outras características. É uma descrição de campo, não um ensaio de laboratório. A coluna “Orig.” traz a origem geológica, quando informada: AT (aterro), SRM (solo residual maduro), SRJ (solo residual jovem), entre outras da legenda.
- Nível d’água (N.A.). Na coluna, os triângulos marcam o nível inicial (I) e o de 24 h (24); no rodapé, as duas medidas com data e hora. No exemplo: 3,80 m ao fim do furo e 3,40 m 24 horas depois. A água subiu 40 cm enquanto o furo descansava.
- Avanço e revestimento. Como o furo foi aberto em cada trecho: TH (trado helicoidal), TC (trado cavadeira) ou CA (circulação de água). O número abaixo é a profundidade do revestimento naquele ensaio. No exemplo, o trado vai até 1 m; daí em diante, circulação de água.
Recorte 4 — paralisação e rodapé

- Paralisação e fim do furo. A profundidade final (12,00 m) e o motivo da parada. Aqui, “profundidade programada atingida”: o furo parou onde o programa da investigação mandava, e não porque o solo impediu.
- Legenda e responsável técnico. As siglas usadas, os códigos de estado com os nomes, as hachuras dos materiais e o profissional responsável, com o registro. Um boletim sem responsável técnico identificado não deve ser usado em projeto.
Boletim fictício SP-DEMO, gerado pelo Estrato. Dados de demonstração, sem validade técnica.
Abrir o boletim completo em PDFPasso a passo de leitura
- Identifique o furo. Confira o nome, a obra e a data, e ache o furo na planta de locação.
- Ache a água. Leia o N.A. inicial e o de 24 h. Se não houver água, o boletim deve dizer isso.
- Percorra as camadas de cima para baixo. Veja o material, a espessura e a origem de cada uma.
- Acompanhe o N. Na curva azul, veja onde o solo fica mais mole ou mais resistente, e se isso coincide com a troca de camada.
- Leia o fim. Profundidade final e motivo da paralisação: o furo parou porque chegou onde devia ou porque o solo não deixou avançar?
Casos especiais
O exemplo é um boletim “limpo”. Na prática, alguns metros saem diferentes, e o boletim tem notações próprias para isso.
| No boletim | O que aconteceu | Como ler |
|---|---|---|
PH/45 | O amostrador afundou 45 cm só com o peso das hastes, sem nenhum golpe | Solo muito mole ou muito fofo naquele metro. O N não é um número de golpes; o gráfico marca zero |
PM/30 | Afundou 30 cm com o peso do martelo apoiado, sem golpe | Mesma leitura, um pouco menos extrema que o PH |
1/58 | Um único golpe fez o amostrador penetrar 58 cm, mais que os 45 cm do ensaio | Solo muito mole. Não há N, porque os segmentos não se distinguem. Atenção: alguns boletins escrevem o peso próprio na forma 1/cm; a legenda diz qual notação foi usada |
12/15 40/8 | A cravação foi interrompida no 2º segmento: 40 golpes para só 8 cm | Solo muito resistente naquele ponto. O N fica sem valor, porque os 30 cm finais não foram completados; no gráfico, a marca vai para a borda, com a fração escrita |
- Lavagem e impenetrável ao trépano. Quando a cravação não avança, a equipe pode tentar abrir o furo com o trépano de lavagem. Se mesmo assim ele não avança, o boletim registra os 3 períodos de 10 minutos do ensaio de avanço e o motivo “impenetrável ao trépano de lavagem”.
- Impenetrável ao amostrador ou ao trado. O furo parou porque aquela ferramenta não avançava mais. É o limite do método naquele ponto, e não, por si só, a prova de rocha (veja os erros comuns).
Erros comuns de leitura
- Tomar os golpes do 1º segmento pelo N. O N soma o 2º e o 3º segmentos. O 1º serve para assentar o amostrador.
- Misturar o N.A. inicial com o de 24 h. O de 24 h é medido com o furo estabilizado; em solos argilosos, a água pode levar horas para entrar, e o nível sobe. Quem lê precisa saber qual dos dois está usando.
- Achar que impenetrável é sempre rocha. Um matacão, uma camada cimentada ou um solo residual muito compacto também param o amostrador ou o trado. Confirmar rocha pede outro método, como a sondagem rotativa.
- Ler o estado com asterisco como resultado de laboratório. O código sugerido sai do N e da descrição de campo. É uma classificação de campo, que o responsável técnico pode ajustar.
- Confundir profundidade com cota. A profundidade é medida a partir da boca do furo; a cota é a altitude. Dois furos com a mesma profundidade de camada podem ter a camada em cotas diferentes, se o terreno for inclinado.
- Usar uma escala só para argila e areia. O mesmo N quer dizer coisas diferentes numa argila e numa areia: por isso há duas escalas, consistência e compacidade, com nomes próprios na legenda. Uma tabela única de “solo fraco, médio, forte” mistura as duas.
Checklist: o que conferir num boletim recebido
- Nome do furo, folha, obra, local e datas
- Coordenadas ou locação na planta, e a cota da boca do furo
- Equipamento: amostrador, martelo, queda e revestimento
- Golpes e penetração de cada segmento, em cada metro ensaiado
- INI e NSPT calculados, e as curvas
- Descrição de cada camada, com a profundidade da base
- N.A. inicial e de 24 h, com data e hora, ou a anotação de que não havia água
- Método de avanço e posição do revestimento
- Profundidade final e motivo da paralisação
- Legenda das siglas e dos códigos
- Responsável técnico, com o registro profissional
Glossário
- Amostrador-padrão
- o tubo cravado no fundo do furo, que mede a resistência e traz a amostra.
- Aterro
- solo colocado pelo homem, e não formado no lugar.
- CA (circulação de água)
- avanço do furo com água bombeada, que leva o material para fora.
- Compacidade
- quão compacta está uma areia (de fofa a muito compacta).
- Consistência
- quão firme está uma argila (de muito mole a dura).
- Cota
- altitude de um ponto, em metros. A cota da base de uma camada é a cota do terreno menos a profundidade.
- Impenetrável
- ponto em que a ferramenta (amostrador, trado ou trépano) deixa de avançar.
- INI
- soma dos golpes dos 2 primeiros segmentos de 15 cm.
- Lavagem
- avanço do furo com o trépano e circulação de água.
- NSPT (ou N)
- soma dos golpes dos 2 últimos segmentos de 15 cm; o índice de resistência do ensaio.
- N.A.
- nível d’água, a profundidade em que a água aparece no furo.
- Origem
- de onde o solo veio: aterro, aluvionar, coluvionar, marinho, residual maduro ou residual jovem.
- Paralisação
- o fim do furo e o motivo da parada.
- PH e PM
- penetração do amostrador só com o peso das hastes (PH) ou com o peso do martelo (PM), sem golpes.
- Revestimento
- o tubo que segura as paredes do furo.
- TH e TC
- avanço com trado helicoidal ou com trado cavadeira.
- Trépano
- a peça cortante usada na lavagem.
Perguntas frequentes
O que é o NSPT e como se calcula?
É o número de golpes para cravar os últimos 30 cm do amostrador: a soma dos golpes do 2º e do 3º segmentos de 15 cm. Com 9, 11 e 13 golpes, o N é 24.
Boletim, laudo e relatório de sondagem são a mesma coisa?
Não exatamente. O boletim é a folha de cada furo. O relatório reúne os boletins, a planta de locação dos furos e a descrição do serviço. No dia a dia, muita gente chama o relatório de “laudo”.
Qual norma trata da sondagem SPT?
A ABNT NBR 6484:2020, “Solo — Sondagem de simples reconhecimento com SPT — Método de ensaio”. Ela é vendida pela ABNT. Ver a norma no catálogo da ABNT.
Por que o boletim tem dois níveis d’água?
Porque a água leva tempo para se acomodar no furo. O inicial é medido ao terminar; o de 24 h, com o furo em repouso. Os dois juntos mostram como a água se comporta naquele ponto.
Impenetrável quer dizer que chegou na rocha?
Não necessariamente. Quer dizer que a ferramenta não avançou. Pode ser rocha, mas também um bloco de rocha solto no solo, uma camada cimentada ou um solo muito compacto.
Dá para escolher a fundação só pelo boletim?
Não. O boletim é um dado de um ponto. A escolha da fundação depende do conjunto dos furos, da obra e das cargas, e é do projetista responsável.