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Poço de monitoramento e piezômetro: como ler o perfil construtivo

Equipe Estrato · Atualizado em

Conteúdo educativo. Não substitui as normas aplicáveis, como a ABNT NBR 15495-1, nem a avaliação do responsável técnico.

Em poucas palavras

Um poço de monitoramento só “enxerga” a água do trecho onde o tubo tem ranhuras, a seção filtrante. Um poço de 6 m com filtro de 3 a 6 m mostra a água de 3 a 6 m, e não a do furo inteiro. O perfil construtivo é o desenho que diz onde fica esse trecho e o que o isola do resto: pré-filtro, selo de bentonita, preenchimento e selo sanitário. O poço de monitoramento serve para medir o nível d’água e coletar amostras de água. O piezômetro, no sentido usado aqui, serve para medir o nível d’água num trecho curto.

Poço ou piezômetro?

Os dois são tubos instalados num furo, com um trecho filtrante e selos acima dele. O que muda é a pergunta que cada um responde.

Poço de monitoramentoPiezômetro (neste guia)
Para que serveMedir o nível d’água e coletar amostras de água para análiseMedir o nível d’água num ponto e numa profundidade definidos
O que se tira deleLeituras de nível e amostras de águaLeituras de nível
Seção filtrantePensada para a camada que se quer amostrarCurta, para que a leitura represente aquela profundidade
Norma citada no relatórioABNT NBR 15495-1 (projeto e construção) e 15495-2 (desenvolvimento)Não há uma norma própria entre as citadas pelo Estrato; a perfuração e a descrição do solo seguem as normas do furo

Os dois sentidos de “piezômetro”. Na instrumentação geotécnica, de barragens, aterros e encostas, “piezômetro” também é o instrumento que mede a pressão da água nos poros do solo: de tubo aberto (tipo Casagrande), elétrico, de corda vibrante ou pneumático. Esse uso tem leitura e finalidade próprias e não é o assunto deste guia. Aqui, piezômetro é o tubo de observação do nível d’água, que o Estrato desenha com o mesmo tipo de perfil construtivo do poço.

O perfil, item por item

Recorte 1 — cabeçalho

Recorte do relatório do poço PM-01 com os itens 1 a 4 numerados: o código do ponto, a obra, o cliente e o local, o método de perfuração, a cota do terreno, as datas, as coordenadas e os diâmetros da perfuração e do tubo. Dados fictícios.
  1. Identificação do poço. O código do ponto (PM-01) é o que liga o perfil à planta de locação e às campanhas de amostragem seguintes. Por isso, um poço mantém o mesmo nome por toda a vida dele.
  2. Método e datas. Como o furo foi aberto (aqui, trado mecanizado) e quando (01/10 a 02/10/2026). O método ajuda a entender como as amostras de solo foram descritas.
  3. Cota do terreno e coordenadas. A altitude da boca do furo (6,00 m) e a posição (X 743.068,99, Y 6.943.604,31, SIRGAS 2000, fuso 22S). Sem a cota, não dá para comparar o nível d’água de poços diferentes.
  4. Diâmetros. O da perfuração (150 mm) e o do tubo (50 mm). A diferença entre os dois é o espaço anular, ao redor do tubo, onde ficam o pré-filtro, a bentonita e o preenchimento.

Recorte 2 — camadas, nível d’água e perfil construtivo

Recorte do relatório do poço PM-01 com os itens 5 a 13 numerados: as quatro camadas de solo com a descrição geológica, o triângulo azul do nível d’água a 2,10 m e o desenho do poço, com a proteção superficial, o selo sanitário, o preenchimento, o selo de bentonita, o tubo liso, o pré-filtro e o tubo filtrante. Dados fictícios.
  1. Camadas e descrição. O solo atravessado, de cima para baixo: aterro até 1,20 m, argila arenosa até 2,40 m, areia siltosa até 4,30 m e areia com pedregulho até 6,00 m. É o que diz em qual material a água entra no poço.
  2. Nível d’água (N.A.). O triângulo azul marca 2,10 m de profundidade. O boletim diz “N.A. final”, o nível medido no fim do trabalho; o “inicial” é o encontrado durante a perfuração. Uma leitura é a de um dia: o nível sobe e desce com as chuvas e as estações.
  3. Proteção superficial. A caixa ou tampa que protege a boca do poço contra choques e contra a entrada de água da superfície.
  4. Selo sanitário (0 a 0,50 m). Fecha o topo do espaço anular, para que a água da chuva não desça pela parede do tubo.
  5. Preenchimento (0,50 a 1,40 m). O material que completa o espaço anular entre os selos.
  6. Selo de bentonita (1,40 a 2,40 m). Uma camada de argila que incha com a água e veda o espaço anular logo acima do pré-filtro. É ela que impede que a água das camadas de cima chegue ao filtro por fora do tubo.
  7. Tubo liso (0 a 3,00 m). O trecho do tubo sem ranhuras: a água não entra por ele.
  8. Pré-filtro (2,40 a 6,00 m). Areia selecionada em volta do tubo filtrante, que deixa a água passar e segura o solo fino. Começa um pouco acima do filtro.
  9. Tubo filtrante (3,00 a 6,00 m). O trecho com ranhuras, por onde a água entra. É o item mais importante do perfil: o poço representa a água dessa faixa.

Recorte 3 — resumo e fecho

Recorte do relatório do poço PM-01 com os itens 14 a 16 numerados: o resumo dos intervalos do tubo filtrante, do pré-filtro e da bentonita, a profundidade final com o nível d’água e o campo do responsável técnico. Dados fictícios.
  1. Resumo dos intervalos. A mesma informação do desenho, em números: tubo filtrante de 3,00 a 6,00 m (3,00 m de comprimento), pré-filtro de 2,40 a 6,00 m e bentonita de 1,40 a 2,40 m. Na dúvida entre o desenho e o texto, confira os dois.
  2. Profundidade final e N.A. O furo terminou a 6,00 m, e o nível d’água ficou a 2,10 m.
  3. Responsável técnico. Quem responde pelo poço. No exemplo, o campo diz “documento demonstrativo, sem validade técnica”.

Poço fictício PM-01, gerado pelo Estrato. Dados de demonstração, sem validade técnica.

Passo a passo de leitura

Imagine que você recebeu o perfil do PM-01 junto com o laudo da análise da água e quer saber de onde veio aquela amostra. Seis passos respondem.

  1. Confira de qual poço é o perfil: código, local, datas e coordenadas.
  2. Ache a seção filtrante e anote o intervalo. Tudo o que o poço mostra vem dali.
  3. Veja em que camadas ela está. No PM-01, o filtro fica na areia siltosa e na areia com pedregulho, de 3 a 6 m.
  4. Compare com o nível d’água. O N.A. está acima do filtro, dentro dele ou abaixo? No PM-01, a 2,10 m, está acima do topo do filtro (3,00 m): é um poço chamado de “afogado”.
  5. Suba pelo espaço anular: pré-filtro em volta do filtro, a bentonita logo acima, depois o preenchimento e o selo sanitário no topo. Se houver um vão entre o pré-filtro e a bentonita, pergunte ao responsável.
  6. Feche com a profundidade final e o responsável técnico.

O que muda no perfil de um piezômetro

O desenho tem as mesmas partes: tubo liso, tubo filtrante, pré-filtro, bentonita, preenchimento e selo. A leitura muda em dois pontos:

  • A seção filtrante costuma ser curta. Num piezômetro fictício com filtro de 3,00 a 3,60 m, a leitura de nível representa essa faixa de 0,60 m, e não a coluna toda.
  • Ele é lido pelo nível, não por amostras. O que interessa são as leituras ao longo do tempo, cada uma com a data.

Por isso, um piezômetro não substitui um poço de monitoramento quando o objetivo é amostrar a água, e o contrário também vale: um poço com filtro longo mede um nível “médio” da faixa filtrante.

Erros comuns de leitura

  1. Achar que o poço mede a água do furo inteiro. Ele mede a água da seção filtrante. No PM-01, de 3 a 6 m.
  2. Confundir o diâmetro da perfuração com o do tubo. No PM-01, o furo tem 150 mm, e o tubo, 50 mm.
  3. Confundir profundidade com cota. No PM-01, a cota do terreno é 6,00 m, e a profundidade final também é 6,00 m, por coincidência. O N.A. a 2,10 m de profundidade está na cota 3,90 m (6,00 − 2,10).
  4. Achar que o N.A. sempre cruza o filtro. Quando o nível fica acima do topo do filtro, o poço é afogado, como o PM-01. Isso pesa, por exemplo, quando se procura um produto que flutua sobre a água.
  5. Tomar uma leitura de nível como o nível do lugar. O nível muda com as chuvas e as estações; cada leitura vale para a data dela.
  6. Tratar poço e piezômetro como a mesma coisa. Os dois têm tubo e filtro, mas respondem a perguntas diferentes (ver a tabela no começo).

Checklist: o que conferir num perfil construtivo recebido

  • Código do poço, obra, local e datas.
  • Coordenadas com o sistema de referência (por exemplo, SIRGAS 2000 e o fuso).
  • Cota do terreno.
  • Método de perfuração.
  • Diâmetros da perfuração e do tubo.
  • Camadas descritas até a profundidade final.
  • Nível d’água, com o tipo de leitura (inicial ou final) e a data.
  • Intervalos de tubo liso e tubo filtrante, que somados chegam à profundidade final.
  • Intervalos de pré-filtro, bentonita, preenchimento e selo sanitário, sem vãos entre eles.
  • Bentonita logo acima do pré-filtro, e o pré-filtro cobrindo toda a seção filtrante.
  • Proteção superficial indicada.
  • Legenda dos materiais.
  • Responsável técnico e registro.

Glossário

Poço de monitoramento
poço instalado para medir o nível d’água e coletar amostras de água subterrânea. Não serve para abastecimento.
Piezômetro
neste guia, tubo instalado para medir o nível d’água num trecho curto. Na geotecnia, também é o instrumento que mede a pressão da água nos poros.
Perfil construtivo
o desenho do poço em profundidade, com o tubo, o filtro e o que foi colocado em volta.
Seção filtrante (tubo filtrante)
o trecho do tubo com ranhuras, por onde a água entra.
Ranhura
cada abertura fina do tubo filtrante.
Tubo liso
o trecho do tubo sem ranhuras, da boca até o topo da seção filtrante.
Espaço anular
o espaço entre a parede do furo e o tubo.
Pré-filtro
areia selecionada em volta do tubo filtrante.
Selo de bentonita
camada de argila bentonítica que incha com a água e veda o espaço anular acima do pré-filtro.
Preenchimento
o material que completa o espaço anular acima do selo de bentonita.
Selo sanitário
a vedação do topo do espaço anular, na superfície.
Proteção superficial
a caixa ou tampa que protege a boca do poço.
N.A. (nível d’água)
a profundidade em que a água foi encontrada ou medida.
Poço afogado
poço em que o nível d’água fica acima do topo da seção filtrante.
Cota
a altitude de um ponto. A cota do N.A. é a cota do terreno menos a profundidade do nível.
Profundidade final
até onde o furo foi aberto.
Trado mecanizado
perfuração com uma broca helicoidal girada por motor.

Perguntas frequentes

O que é um poço de monitoramento?

É um poço feito para acompanhar a água subterrânea de um local: medir o nível e coletar amostras para análise, por exemplo, em postos de combustível e em áreas com suspeita de contaminação. Não é um poço de abastecimento.

Para que serve um piezômetro?

No sentido deste guia, para medir o nível d’água num ponto e numa profundidade definidos, com leituras ao longo do tempo. Na geotecnia, o nome também designa instrumentos que medem a pressão da água nos poros, em barragens e aterros.

Quais são os tipos de piezômetro?

Na instrumentação geotécnica, os mais citados são o de tubo aberto (tipo Casagrande), o elétrico, o de corda vibrante e o pneumático. Este guia trata só do tubo de observação do nível d’água.

Qual é a norma do poço de monitoramento?

No Brasil, a ABNT NBR 15495-1 trata do projeto e da construção (a edição vigente é de 2024), e a ABNT NBR 15495-2, do desenvolvimento do poço (edição de 2026). Ainda circulam textos baseados nas edições antigas; confira a data da norma que você usa.

O que é poço afogado?

É o poço em que o nível d’água fica acima do topo da seção filtrante. No exemplo deste guia, o nível está a 2,10 m, e o filtro começa a 3,00 m.

O que vai no perfil construtivo?

A identificação e a localização do poço, a cota, os diâmetros, as camadas com o nível d’água e o desenho do tubo, com os intervalos de tubo liso, tubo filtrante, pré-filtro, bentonita, preenchimento e selo sanitário. O checklist acima lista o que conferir.

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